Voo 342 – O mal que nos protege (2023)

Brasil (RS)
Longa-metragem | Ficção
cor, 110 min

Direção: Luiz César Rangel.
Companhia produtora: Cine Kua Non e LCR Imagem Produções

Primeira exibição: Plataformas digitais: previsão de estreia em 28 dez 2023

 

Reflexo do clima de polarização social que acompanha o Brasil nos últimos anos, este longa-metragem orgulha-se de ser um dos poucos a contar uma história situada quase inteiramente a bordo de um avião. Não é o único: curiosamente, no mesmo ano foi lançado O Sequestro do voo 375 (Marcus Baldini, 2023), de orçamento bem maior. Voo 342 – O mal que nos protege foi gravado em apenas um único dia de 2022. É fruto de um desejo do cineasta carioca Luiz César Rangel de fazer um tenso drama político conectado ao universo da aviação – mesmo sem ter um centavo no bolso. A solução foi ir até um museu da cidade de Gramado, onde o cineasta mora, e obter autorização para filmar um pequeno jato por dentro. Posteriormente, um profissional amigo de Rangel (John Gonçalves) se encarregou de fazer a computação gráfica, simulando as operações aéreas.

O roteiro narra o sequestro de uma senadora da República: Lídia Abate (interpretada pela atriz gaúcha Anelise Caldini), do fictício PCFB (Partido Conservador da Família Brasileira). Ela é dopada, removida de sua casa e levada até um aeroporto, acordando muitas horas depois, já dentro de uma aeronave. Dentro dela, existe apenas um outro homem: o piloto, Alan Gomes. Em cenas de flashback, Gomes é visto tendo um encontro anterior com Carrasco, um elemento misterioso, responsável por tudo que está acontecendo. Carrasco sabia todos os detalhes da vida pessoal e profissional do aviador, como seu envolvimento com o tráfico de drogas, e chantageou-o para participar do esquema. Câmeras e microfones são instalados estrategicamente dentro do avião, permitindo que Carrasco possa se comunicar com ambos. Toda a ação acontece nesse ambiente pequeno, apertado e claustrofóbico.

Ao longo das conversas, Carrasco revela-se um cidadão de esquerda, amargurado pela gestão do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). Ele perdeu os pais idosos para a covid-19, antes que a vacina pudesse chegar a tempo. E viu a esposa ser baleada por um infrator que teve acesso facilitado a um revólver, reflexo de uma pauta armamentista. Ao capturar uma parlamentar ligada ao campo de direita, ele tem como objetivo obter uma espécie de vingança pessoal contra o antigo regime. E também se apresentar como um justiceiro, protetor da sociedade. Ao mesmo tempo, Lídia luta pela sua sobrevivência, inclusive fazendo ofertas de cunho financeiro para demovê-lo de suas intenções. Carrasco, no entanto, prefere confrontá-la, criticando gestos como a publicação de notícias falsas, o incentivo à compra de medicamentos de eficácia não comprovada (contra o coronavírus) e a suposta ligação com milicianos do Rio de Janeiro. Mas o sequestrador seria um ser humano "melhor" do que os seus rivais políticos?

Em contato com o Portal do Cinema Gaúcho, o diretor Luiz César Rangel fez considerações sobre o resultado final do longa: "Óbvio que, quando a gente faz, acredita estar fazendo o melhor filme do mundo. Eu me frustrei pela não repercussão do filme. Acho que ele é o único que aborda claramente, da forma como aborda, algumas questões políticas importantes no país, nos últimos anos. Então, eu me frustrei por ele não ter sido muito comentado, visto, reconhecido. Tecnicamente, não. Foi o filme que deu para fazer. A proposta foi bacana. O filme foi feito antes da eleição de 2022, embora tenha saído só em 2023. Apenas ninguém criticou, do lado oposto. E ninguém aprovou, do lado que eu defendo. Isso me frustrou muito. Mas a questão política que me motivou eu vou fazer sempre. Não vou deixar de fazer porque surte efeito ou não surte efeito". Curiosidades: os créditos iniciais incluem falas de nomes como Ulysses Guimarães (1916-1992) e Newton Cruz (1924-2022). E um conteúdo extra é disponibilizado após os créditos finais, na plataforma de streaming Looke: o curta Inveja, do mesmo realizador.

Sinopse


Cartelas iniciais: // "Olho por olho, dente por dente". – Código de Hamurabi. / "Não se combate crime cometendo crime". – ministro Gilmar Mendes, Suprema Corte do Brasil. //

Um voo e dois passageiros, um único homem em terra. O que aparentemente poderia ser um simples sequestro se transforma em algo muito mais sombrio. Justiça ou vingança? É correto se fazer justiça com as próprias mãos?

Cartela final: // "Verás que um filho teu não foge à luta". – Joaquim Osório Duque-Estrada. //

Ficha técnica


ELENCO
Anelise Caldini (Senadora), Socleson Dantas (Piloto Alan Gomes),
Mariana Ruduit, Dioudmar Santiago,
Gustavo Deon.
Participação especial: Rubia Abs, Tiago Ries.
Paulo Ortiz.
Não creditado: Luiz César Rangel (Delegado Carrasco).
Arquivo: Ulysses Guimarães (voz), general Newton Cruz (Brasília, 1979), Jair Bolsonaro (2022).

DIREÇÃO
Direção: Luiz César Rangel.

ROTEIRO
Roteiro: Luiz César Rangel.

PRODUÇÃO
Produção: Luiz César Rangel.

FOTOGRAFIA
Direção de fotografia: Lucas Fialho.

SOM
Som: não creditado.

MÚSICA
Músicas:
• "Hino Nacional Brasileiro" (música: Francisco Manuel da Silva, letra: Joaquim Osório Duque-Estrada) instrumental por Mykeias Bemol
Não creditada: "Los Bilbilicos" ["The Nightingales"] (trad. ladino) por E's Jammy Jams
• "Why did you do it" por Dog and Poka [música tema créditos finais]

ARQUIVO
Áudio de discursos de Ulysses Guimarães (1916-1992).
Entrevista do general Newton Cruz (1924-2022), Brasília, 1979.
Massacre da Praça da Paz Celestial, 1988.
Queda do Muro de Berlin, 1989.
Brasília, 8 de janeiro de 2023.

FINALIZAÇÃO
Montagem: Luiz César Rangel.

Computação gráfica e 3D: John Gonçalves.

EQUIPAMENTOS E SERVIÇOS

MECANISMOS DE FINANCIAMENTO
Companhia produtora: Cine Kua Non e LCR Imagem Produções (Gramado).
Apoio: Sky Hotéis / www.skyhoteis.com.br; Selfie Gramado; Cantina Di Capo; Aquecee – Restaurante & lancheria; MedicDental; Café da Banca; O Mestre – Pizzaria.
// Trabalho realizado inteiramente de forma independente, sem nenhum fomento de incentivo à cultura ou demais verbas. //

AGRADECIMENTOS
Agradecimento especial: A todo o elenco que abraçou o projeto de forma cooperativada, tornando possível a sua realização.

FILMAGENS
Brasil / RS, em Gramado.
Período: um dia de filmagem.

ASPECTOS TÉCNICOS
Duração: 1:50:00
Som:
Imagem: cor
Proporção de tela:
Formato de captação:
Formato de exibição:

DIVULGAÇÃO
@voo_342_o_filme / @cine.kua.non
@luiz.cesar.rangel / @fialho.lucas / @john_henrique_ig / @mykeias_bemol
@anelisesc / @socleson / @marianaruduit / @dioudmar_santiago / @gustavodeonoficial / @rubiaabs / @tiago.riesschmidt / @pauloortiz585

DISTRIBUIÇÃO
Classificação indicativa: 16 anos.
Distribuição:
Contato: Cine Kua Non e LCR Imagem Produções.

OBSERVAÇÕES
Créditos finais: // Resistimos, persistimos e existimos! / Gramado, RS, Brasil – 2023 © Cine Kua Non & LCR Imagem Produções //

Títulos alternativos: Vuelo 342 – El mal que nos protege
Grafias alternativas: Dioudimar Santiago
Grafias alternativas (funções):

BIBLIOGRAFIA

Exibições


• Plataformas digitais: previsão de estreia em 28 dez 2023

• YouTube, disponível desde 11 jan 2025

Arquivos especiais


Entrevista de Luiz César Rangel a Rodrigo Figueiredo Nunes, por WhatsApp, 18 dez 2025.

Sobre a ligação com o RS: Felizmente, o estado do Rio Grande do Sul tem um povo maravilhoso, tem locações incríveis. Você poderia gravar aqui desde um Mad Max, um filme apocalíptico, passando por filmes de época (referente a qualquer lugar do mundo, não só do Brasil; poderia ser sobre o Japão feudal), tem litoral, tem tudo. Há homens bonitos, mulheres bonitas, não só loiros europeus, mas várias etnias. Os pretos, no Rio Grande do Sul, são bonitos. Os orientais são bonitos. A mistura daqui deu muito certo. Então, penso que isso aqui deveria ser um celeiro, uma indústria, uma fábrica de produção audiovisual. Deveria ser como era no Rio de Janeiro do passado, quando você tropeçava em equipamentos ao andar pela rua, como geradores, tripés, rebatedores. O Rio Grande do Sul poderia ser a Hollywood brasileira. Mas aí, infelizmente, você tem aquela conversa de "falta vontade política", como se o político tivesse o direito de sentir vontade. Ele pede um emprego para gente a cada 4 anos, nós assinamos a carteira de trabalho dele e pagamos um salário com um valor que a gente nunca vai ganhar na vida. E eles vêm com essa conversa de que não tem vontade política. Você não tem um investimento público ou se perde em interesses internos da própria classe, já que alguns membros se consideram membros de uma elite. Isso é assim em todo o Brasil: Rio, São Paulo, etc. Você tem uma elite intelectual que gosta de julgar e gosta de usar termos como "esteticamente agradável" para tentar eliminar produções que não são feitas com grandes recursos. Então, é muito difícil produzir aqui. Eu tenho maior orgulho e bato no peito quando vou para outro estado e me chamam de cineasta gaúcho. Porque eu sempre quis vir para cá, desde criança. Eu tenho fotos minhas na escola, no Rio de Janeiro, por volta do primário, quando eu tive o meu primeiro contato com a cultura gaúcha. Dentro da minha família, tive uma tia que era fã do Teixeirinha. Na minha adolescência, eu curtia Kleiton & Kledir. Eu lia Erico Verissimo, Luis Fernando Verissimo, Simões Lopes Neto. Também tive toda uma influência nordestina na minha formação, que acho maravilhosa. Nordeste é incrível culturalmente falando. Então, minha ligação com o Rio Grande do Sul é afetiva, desde moleque. Sempre sonhei em vir para cá. Quando eu cheguei aqui, eu tive uma grande alegria e uma grande decepção. A alegria de estar aqui e ter amigos que levei para o resto da vida, porque o povo gaúcho, quando te tira para amigo, é mais do que um parente. Não é que nem o carioca ("Pô, meu irmão, que saudade, vai lá em casa" e aí sai fora e nem dá o telefone direito). Aqui, não é assim. Aqui, se você vai na casa de alguém, é recebido com uma mesa posta. Se liga na faixa das 03 da manhã com um problema de carro na estrada, alguém vai lá e te socorre. O povo gaúcho é único. Então, tive essa alegria. A grande decepção é essa coisa que eu vivo diariamente. Relacionada até com o poder público. Aqui em Gramado, existe uma Secretaria de Cultura. Eu sou o único cineasta nacionalmente conhecido que vive no município. Hoje, felizmente, eu cheguei num patamar em que eu não preciso me gabar disso, mas tenho que me orgulhar e ser grato por todos que acreditaram no meu trabalho e estão juntos até hoje. Mas essa Secretaria de Cultura de Gramado, durante o Festival de Cinema da cidade, não convida o único cineasta comercial por assim dizer (conhecido nacionalmente) que vive na região. Eu não tenho ingresso para entrar no Festival. Eu não tenho um filme produzido em Gramado que o Festival se digne a querer mostrar hors concours. Então, essas coisas me trazem infelicidade em relação à gestão do município. E do Estado. É um povo maravilhoso que não merece quem está gerindo. E isso não é só aqui. É no Brasil todo, claro. A minha ligação é de longa data. Ela é até mais antiga do que a sua, já que eu tenho 53 anos de idade. Sou pai de um gaúcho de 20 anos. Artista também, que toca na orquestra. Agora, é o responsável pela Cine Kua Non, legalmente falando. Sou casado com uma gaúcha. Meus maiores amigos são gaúchos. Então, é isso".

Sobre o filme: "O filme tem que responder por ele. Óbvio que, quando a gente faz, acredita estar fazendo o melhor filme do mundo. Eu me frustrei com a não repercussão. Acho que ele é o único que aborda, da forma como aborda, claramente, algumas questões políticas importantes. Então, eu me frustrei por ele não ter sido muito comentado, visto, reconhecido. Tecnicamente, não. Foi o filme que deu para fazer, rodado basicamente em um único dia. Eu queria fazer um filme com avião sem ter um centavo no bolso. E a gente foi até um Museu de Gramado, obteve autorização para filmar um avião por dentro. Um amigo meu fez a parte da computação gráfica, por fora. E assim a gente contou a história. A proposta foi bacana. O filme foi feito antes da eleição de 2022, embora tenha saído só em 2023. Apenas ninguém criticou, do lado oposto. E ninguém aprovou, do lado que eu defendo. Isso me frustrou muito. A questão política que me motivou eu vou fazer sempre. Não vou deixar de fazer porque surte efeito ou não surte efeito".

Como citar o Portal


Para citar o Portal do Cinema Gaúcho como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:
Voo 342 – O mal que nos protege. In: PORTAL do Cinema Gaúcho. Porto Alegre: Cinemateca Paulo Amorim, 2026. Disponível em: https://cinemateca2.webdesignerlopes.com.br//portaldocinemagaucho/2625/voo-342-o-mal-que-nos-protege. Acesso em: 03 de fevereiro de 2026.